Sobre os novos tratamentos para a Doença de Alzheimer

Sobre os novos tratamentos para a Doença de Alzheimer

A verdade inescapável é que estes novos tratamentos constituem a melhor opção farmacológica para reduzir a probabilidade de progressão de uma pessoa com Doença de Alzheimer numa fase inicial.

Sobre os novos tratamentos para a Doença de Alzheimer

A Doença de Alzheimer é uma doença terrível que, pela elevada prevalência, todos os leitores conhecem e já contactaram de alguma forma. Antigamente percecionada como uma inevitabilidade do envelhecimento, sabe-se hoje que não é necessariamente o destino final de quem vive muitos anos, nem é uma doença exclusiva de octogenários. Em 2025 foram aprovados pelas agências reguladoras norte-americanas e europeias dois novos medicamentos para formas ligeiras de Doença de Alzheimer, o lecanemab e donanemab, que estão disponíveis em Portugal, mas não comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde.

Sobre os novos tratamentos para a Doença de Alzheimer

A inovação terapêutica, sendo obviamente uma boa notícia para os doentes, constitui uma grande pressão sobre os sistemas de saúde públicos. O facto de serem tratamentos caros, com uma logística difícil de administração e monitorização, exige das autoridades um escrutínio fino do ponto de vista clínico e económico. Na semana passada, e a propósito do repto da Associação Alzheimer Portugal, que solicitou o acesso dos doentes a estes medicamentos, a ministra da Saúde explicou que, de momento, não havia um parecer positivo para a sua comparticipação.

Sobre os novos tratamentos para a Doença de Alzheimer

Em que consistem estes tratamentos? São moléculas que atuam pela remoção da proteína amilóide, que é uma substância que se encontra no cérebro de pessoas com Doença de Alzheimer. São administrados de forma endovenosa, sob monitorização hospitalar, quinzenal ou mensalmente. O raciocínio subjacente é que, estando esta proteína amilóide envolvida no desenvolvimento da doença, esperar-se-ia que a sua remoção interrompesse o processo patológico e, assim, estabilizasse os sintomas e impedisse a progressão para estádios de doença mais avançados. Os ensaios clínicos que levaram à aprovação dos medicamentos mostraram:

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Estes novos medicamentos são muito utilizados nos Estados Unidos da América, no Japão e na China. Na Europa, a sua utilização é mais restrita, estando a ser prescritos sobretudo na Alemanha, Áustria e Luxemburgo. Um conjunto alargado de países (França, Itália, Holanda, Suécia, Dinamarca, Finlândia, e agora Portugal) emitiu pareceres desfavoráveis à cobertura pública pelos respetivos serviços nacionais de saúde, citando relações risco/benefício pouco favoráveis e custos excessivos. No Reino Unido existe um parecer favorável para a sua administração pela Medicine and Healthcare Products Regulatory Agency, mas o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomendou que o serviço nacional de saúde britânico não comparticipasse os medicamentos. Pode-se então prescrever os tratamentos, mas o doente terá de pagar do seu bolso ou discutir com a sua seguradora. É a mesma situação que ocorre neste momento em Portugal

Sobre os novos tratamentos para a Doença de Alzheimer

Para além das questões económicas, alguns médicos e investigadores têm reservas quanto ao real benefício destes medicamentos. As hesitações prendem-se com vários aspetos, entre os quais:

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É possível argumentar contra a maioria destas preocupações, em particular:

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3) os riscos são mitigados por uma bateria importante de testes prévios, em que são excluídos doentes que têm maior risco de desenvolver edema e hemorragia cerebrais; e por último

 

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4) a comparação com os antidemenciais atualmente disponíveis, aprovados há mais de trinta anos, não faz grande sentido porque são medicamentos com indicação apenas para fases de demência (em que a pessoa já tem dependência de terceiros), ao contrário dos novos que estão pensados sobretudo para pessoas com défices ligeiros e ainda autónomas.

Sobre os novos tratamentos para a Doença de Alzheimer

Em Medicina, são raros os avanços sem riscos ou dúvidas. A verdade inescapável é que estes novos tratamentos, à data de hoje e com as suas limitações, constituem a melhor opção farmacológica para reduzir a probabilidade de progressão de uma pessoa com Doença de Alzheimer numa fase inicial. A ausência de comparticipação pelo Serviço Nacional de Saúde, para além de agravar desigualdades, coloca um problema adicional de toxicidade financeira sobre doentes e famílias que já têm muito com que se preocupar.

Rui Araújo – neurologista

FONTE: Público